Vista com os olhos de hoje, a tal “defesa da democracia” feita pelos liberais de 1964 soa como uma grande contradição. Eles diziam que estavam salvando o país, protegendo a democracia e a ordem institucional. Mas, na prática, o que fizeram foi exatamente o contrário: abriram o caminho para um regime autoritário.
Os discursos de Castello Branco mostram bem isso. Eram falas de uma elite assustada com a entrada do povo na política. O governo João Goulart representava justamente isso: sindicatos, trabalhadores, camponeses e movimentos populares querendo participar das decisões do país. Para essa elite, isso era “bagunça”, “populismo” e “ameaça comunista”.
O problema é que, para barrar essa participação popular, os liberais aceitaram — e depois apoiaram — medidas cada vez mais autoritárias. No início, ninguém dizia abertamente que queria uma ditadura. O autoritarismo foi crescendo aos poucos, conforme surgiam conflitos, críticas e articulações políticas fora do controle do regime.
Sempre que aparecia oposição, a resposta vinha com o discurso da “ordem e da estabilidade”. Foi assim que surgiram o AI-2, as cassações, o fechamento do sistema político e, finalmente, o golpe dentro do golpe em 1968, com o AI-5. Não foi um plano claro desde o começo. Foi mais um estado de espírito autoritário do que um projeto assumido — mas nem por isso menos ideológico.
Por isso, muitos analistas chamaram o regime de autoritário, mas não totalitário. Diferente do fascismo clássico, o regime militar brasileiro não mobilizava as massas, não criou um partido único forte, não organizava a vida cotidiana de forma total. Havia uma Constituição, eleições controladas, Congresso funcionando de fachada. Mas tudo isso coexistia com censura, perseguição, tortura e arbitrariedade.
Era um sistema em que a lei existia, mas só valia quando não atrapalhava o poder. Um regime de “liberdades permitidas” e repressão cotidiana.
Com o tempo, especialmente depois do governo Médici, a discussão deixou de ser democracia e passou a ser crescimento econômico. O “milagre econômico” serviu como moeda de troca: enquanto a economia crescia, parte das elites e até setores antes críticos aceitaram o regime. A resistência democrática foi sendo engolida por um pacto silencioso em nome da ordem.
No fundo, isso não era novidade na história do Brasil. Desde a República, o país funciona com um padrão parecido: política feita por cima, entre elites, com pouca participação popular. Um sistema que prefere cooptação em vez de representação, exclusão em vez de democracia real. A obediência não precisa ser sempre pela força, porque a desigualdade social já faz boa parte do trabalho.
Por isso, a pergunta central não é se o regime usava mais ou menos repressão. A pergunta é: quem era incluído e quem era excluído. Quem se beneficiava do sistema e quem pagava o preço. O regime militar se sustentou porque garantiu ganhos concretos às classes dominantes e apenas migalhas — quando muito — às classes dominadas.
A hegemonia do regime não se dava convencendo o povo, mas organizando o poder entre os de cima. Havia uma fração dirigente dentro da classe dominante que mandava, enquanto o resto obedecia ou era silenciado. A ideologia democrática continuava no discurso, mas esvaziada na prática.
E aí chegamos ao ponto final:
quando a política vira coisa de cúpula, quando o povo é tratado como ameaça e não como sujeito, o autoritarismo deixa de ser exceção e vira método.
👉 E é justamente isso que diferencia política de projeto de política de fofoca:
um discute poder, estrutura e exclusão; o outro só fala de pessoas, intrigas e escândalos, porque não quer — ou não consegue — discutir o sistema.