30 março, 2014

Em nome da ordem, enterraram a democracia

Vista com os olhos de hoje, a tal “defesa da democracia” feita pelos liberais de 1964 soa como uma grande contradição. Eles diziam que estavam salvando o país, protegendo a democracia e a ordem institucional. Mas, na prática, o que fizeram foi exatamente o contrário: abriram o caminho para um regime autoritário.

Os discursos de Castello Branco mostram bem isso. Eram falas de uma elite assustada com a entrada do povo na política. O governo João Goulart representava justamente isso: sindicatos, trabalhadores, camponeses e movimentos populares querendo participar das decisões do país. Para essa elite, isso era “bagunça”, “populismo” e “ameaça comunista”.

O problema é que, para barrar essa participação popular, os liberais aceitaram — e depois apoiaram — medidas cada vez mais autoritárias. No início, ninguém dizia abertamente que queria uma ditadura. O autoritarismo foi crescendo aos poucos, conforme surgiam conflitos, críticas e articulações políticas fora do controle do regime.

Sempre que aparecia oposição, a resposta vinha com o discurso da “ordem e da estabilidade”. Foi assim que surgiram o AI-2, as cassações, o fechamento do sistema político e, finalmente, o golpe dentro do golpe em 1968, com o AI-5. Não foi um plano claro desde o começo. Foi mais um estado de espírito autoritário do que um projeto assumido — mas nem por isso menos ideológico.

Por isso, muitos analistas chamaram o regime de autoritário, mas não totalitário. Diferente do fascismo clássico, o regime militar brasileiro não mobilizava as massas, não criou um partido único forte, não organizava a vida cotidiana de forma total. Havia uma Constituição, eleições controladas, Congresso funcionando de fachada. Mas tudo isso coexistia com censura, perseguição, tortura e arbitrariedade.

Era um sistema em que a lei existia, mas só valia quando não atrapalhava o poder. Um regime de “liberdades permitidas” e repressão cotidiana.

Com o tempo, especialmente depois do governo Médici, a discussão deixou de ser democracia e passou a ser crescimento econômico. O “milagre econômico” serviu como moeda de troca: enquanto a economia crescia, parte das elites e até setores antes críticos aceitaram o regime. A resistência democrática foi sendo engolida por um pacto silencioso em nome da ordem.

No fundo, isso não era novidade na história do Brasil. Desde a República, o país funciona com um padrão parecido: política feita por cima, entre elites, com pouca participação popular. Um sistema que prefere cooptação em vez de representação, exclusão em vez de democracia real. A obediência não precisa ser sempre pela força, porque a desigualdade social já faz boa parte do trabalho.

Por isso, a pergunta central não é se o regime usava mais ou menos repressão. A pergunta é: quem era incluído e quem era excluído. Quem se beneficiava do sistema e quem pagava o preço. O regime militar se sustentou porque garantiu ganhos concretos às classes dominantes e apenas migalhas — quando muito — às classes dominadas.

A hegemonia do regime não se dava convencendo o povo, mas organizando o poder entre os de cima. Havia uma fração dirigente dentro da classe dominante que mandava, enquanto o resto obedecia ou era silenciado. A ideologia democrática continuava no discurso, mas esvaziada na prática.

E aí chegamos ao ponto final:
quando a política vira coisa de cúpula, quando o povo é tratado como ameaça e não como sujeito, o autoritarismo deixa de ser exceção e vira método.

👉 E é justamente isso que diferencia política de projeto de política de fofoca:
um discute poder, estrutura e exclusão; o outro só fala de pessoas, intrigas e escândalos, porque não quer — ou não consegue — discutir o sistema.

17 setembro, 2011

Vivos, atentos e mobilizados - O DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA

     A comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra continua a oferecer uma oportunidade para examinarmos conceitos e pré-conceitos de muitos acerca do significado dessa data e de outras que afirmam a brasilidade do nosso povo. O artigo publicado no jornal O Globo, intitulado “Distraídos, mataremos” (15/11/2007), evidencia a persistência do domínio branco sobre a possibilidade de construirmos uma nação livre de racismo.

Vale lembrar a afirmação de Boaventura Sousa Santos em seu livro Toward a Multicultural Conception of Human Rights (1997), que nos ajuda a pensar em um imperativo social no contexto de políticas de democratização do acesso que contemplem as diferenças: as pessoas têm direito a ser iguais sempre que a diferença as tornar inferiores; e têm direito a ser diferentes sempre que a igualdade colocar em risco suas identidades.

Em 2001, realizou-se, em Durban, África do Sul, a 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU). Parece que o autor do artigo desconhece esta conferência ou a ignora deliberadamente. Muitos acadêmicos expressam pensamentos conservadores e conceitos racistas sob a aparência do academicismo, tentando ocultar um racismo velado que ecoa nas favelas, no sistema penitenciário e nas estatísticas socioeconômicas, evidenciando uma frágil democracia racial.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam uma combinação perversa que associa fracasso escolar, pobreza e marginalização social. Entre jovens negros de 15 a 19 anos, a taxa de analfabetismo é de 9,1%, contra 3,7% entre os jovens brancos. Entre mulheres, o contraste é ainda mais marcado: 4,2% das mulheres negras são analfabetas, frente a 1,9% das mulheres brancas, evidenciando a dupla discriminação no mercado de trabalho.

Alguns temas despertam polêmica, especialmente quando se referem a datas comemorativas que tratam da liberdade, do respeito humano, da opressão, do genocídio fragmentário e do racismo. Essas discussões não podem ocorrer isoladamente, como muitas vezes vemos em diferentes esferas da sociedade e até no meio acadêmico. Evitar ou desqualificar esse debate é uma estratégia de quem se opõe a discutir o preconceito racial. As datas comemorativas devem ser analisadas no contexto das políticas de ações afirmativas, que buscam combater desigualdades sociais e raciais no Brasil.

Na Conferência de Durban, o Brasil comprometeu-se internacionalmente com a luta contra a discriminação racial, estabelecendo ações voltadas para o desenvolvimento de políticas de ações afirmativas para a população negra brasileira. Essas medidas, implementadas pós-Durban, representam estratégias concretas de combate às desigualdades raciais e, ao serem aplicadas, contribuem também para o enfrentamento das desigualdades sociais.

A desigualdade racial no Brasil não é fruto de uma fatalidade histórica, apesar da naturalidade com que a sociedade a encara. No país, o negro não é discriminado apenas por ser pobre, mas também por ser negro. Classe social, renda e grau de instrução podem atenuar o racismo, mas jamais eliminá-lo.

As datas comemorativas são uma das estratégias de ação afirmativa. Elas proporcionam visibilidade e evidenciam processos históricos e estruturais de discriminação que afetam determinados grupos sociais e étnico-raciais. Talvez seja por isso que tais datas incomodem a sociedade brasileira e alguns acadêmicos, ao desvelarem a crença de que somos uma “democracia racial” e a ideia equivocada de que resolver a questão socioeconômica basta para eliminar a desigualdade racial.

Por isso, seguimos vivos, atentos e mobilizados — mulheres e homens, negros, brancos e indígenas —, mantendo o rumo na perspectiva de uma sociedade humanamente diversa, socialmente justa e verdadeiramente democrática, que reconheça as desigualdades perversas de raça, etnia e gênero.

Venceremos!

16 março, 2011

O apartheid no carnaval de Salvador


Todos sabemos que o carnaval é a festa mais popular do Brasil. Em Salvador, ele envolve o povo brasileiro e atrai milhares de visitantes do mundo todo. Correr atrás do trio elétrico nos circuitos Barra/Ondina ou Campo Grande é, sem dúvida, uma experiência inesquecível, mas é uma memória que nem todos podem vivenciar da mesma forma.

Salvador tem cerca de 80% de população negra, mas essa realidade não se reflete nos grandes blocos. O carnaval da cidade, cada vez mais mercantilizado, é feito para turistas e foliões de fora, em sua maioria brancos. O preço dos abadás varia de R$ 200 a R$ 1.500, tornando inacessível a participação da maioria da população local. Quem sustenta a festa nos bastidores são os “cordeiros” e foliões da pipoca, trabalhadores que seguram a corda dos blocos, garantindo acesso e segurança para os que pagam caro para se divertir. Esses trabalhadores recebem cerca de R$ 25, um suco e um pacote de biscoito, percorrem o trajeto sob sol intenso, ruas sujas e risco de contaminação, enquanto os foliões desfilam bem calçados e vestidos com roupas de grife.

Historicamente, o carnaval da Bahia nasceu da resistência negra e das tradições afro-brasileiras. Os negros, descendentes de escravizados, foram os responsáveis por criar a música, a dança, os ritmos e a alegria que hoje fazem do carnaval de Salvador um espetáculo reconhecido mundialmente. Manifestações como o afoxé, o samba de roda e os blocos afro nasceram da necessidade de afirmar identidade, resistir à opressão e celebrar a ancestralidade. No entanto, essa contribuição fundamental muitas vezes não encontra espaço de protagonismo nos grandes blocos de axé music e trios elétricos, que privilegiam o consumo, o turismo e a visibilidade midiática.

O apartheid no carnaval de Salvador é evidente: de um lado da corda, 99% de brancos se divertindo; do outro, negros trabalhando em condições precárias, sem segurança nem remuneração justa. Essa segregação não é apenas física: é social, econômica e racial. A exclusão do negro do centro da festa simboliza a persistência de desigualdades históricas, mesmo em uma celebração que nasceu de sua própria cultura. A festa que deveria celebrar diversidade, resistência e identidade afro-brasileira hoje evidencia exclusão, discriminação e marginalização de quem fez e ainda faz do carnaval um patrimônio cultural mundial.

Salvador dança, mas nem todos têm direito a festejar. O carnaval é da cidade, mas não é do povo negro. Enquanto uns celebram com conforto e visibilidade, outros trabalham invisíveis, garantindo que a alegria continue, mesmo à custa da sua própria dignidade. Como diria o poeta: de um lado, o carnaval; do outro, a fome, a desigualdade e a injustiça.


30 novembro, 2010

Troca de elite, mas os inimigos ainda são os mesmos!

Ricardo Crô é escritor e compositor
Qui, 25 de novembro de 2010 15:59


Não tarda, nem falha. Em pouco tempo os efeitos colaterais dessa belicosa, midiática e ineficiente "política de segurança" do governo Cabral, estão sendo detectados. Aliás, por aqui não existe o que podemos chamar de política de segurança pública. O que se pratica com vigor renovado é a criminalização da pobreza, como costumam dizer alguns estudiosos. Aqueles poucos que ainda guardam um mínimo de senso crítico. Esses mesmos que não costumam se inebriar pelo canto da sereia, encantando-se com os choques de ordem, nas suas mais diversas feições. Uns e outros que encaram os fatos, de frente, sem lançar mão do discurso fácil, eleitoreiro e mais palatável. Remando na contracorrente do "opinionismo" distorcido de parte da sociedade apavorada e da mídia grande que, notadamente interessada, fornece parte do suporte necessário para a proliferação de políticas elitistas e segregadoras.

08 outubro, 2010

A imprensa caolha no DF

Durante os três meses de campanha eleitoral no Distrito Federal, ficou claro que a imprensa local não é tão “livre” quanto diz. Lendo os jornais, percebi que muitos deles escolheram, de forma sutil ou explícita, apoiar determinados candidatos — e ignorar outros.

Um exemplo gritante: Toninho, do PSOL, esteve presente no julgamento de Joaquim Roriz no TSE, mas a imprensa local ignorou o fato. Já a substituição indicada por Roriz, a senhora Weslian, ganhou primeira página, com direito a foto sorridente ao lado do governador. Enquanto isso, candidatos chamados de “nanicos” eram tratados como irrelevantes.

O resultado do primeiro turno mostrou a falácia dessa narrativa: Toninho chegou a 14,05% dos votos, Eduardo Brandão a 5,42%. Os “nanicos” não eram tão pequenos assim — e a imprensa não quis que o eleitor soubesse disso.

A imprensa que se orgulha de lutar contra a censura do Estado pratica, na prática, uma censura privada. Ao omitir candidatos, limita a democracia e engana o eleitor. Ela enxerga apenas um lado, negando ao público a chance de conhecer todos que disputam uma eleição. A maior censura que se pode fazer a um candidato é simplesmente não noticiá-lo.

O caminho é claro: democratizar os veículos de comunicação, com controle social real. Só assim teremos uma imprensa que sirva à sociedade — e não a interesses privados.


07 outubro, 2010

A parábola do joio e do trigo, e as eleições no DF

Um semeador passou o dia inteiro espalhando grãos de trigo em seu campo. Ao pôr do sol, voltou para casa cansado, mas feliz, pois sabia que aquele trigo, em breve, se transformaria em pão para alimentar muitas pessoas.

Mas ele tinha um inimigo invejoso, que queria prejudicar suas plantações. Pensou em semear pedras, mas isso seria facilmente removido. Então teve uma ideia ainda mais maldosa: semear joio no meio do trigo.

O joio é uma planta parecida com o trigo, mas que não serve para alimentação e pode até ser venenosa. Assim, o inimigo tentou prejudicar a colheita e causar mal a quem consumisse o produto do campo. Durante a noite, ele espalhou o joio pelo trigal e foi embora, satisfeito com sua maldade.

Algum tempo depois, quando as espigas começaram a surgir, também apareceu o joio. Os trabalhadores alertaram o semeador:
— Senhor, não semeaste apenas boas sementes? Por que então há joio no trigal?

O semeador respondeu:
— Foi um inimigo que fez isso.

Eles perguntaram:
— Devemos arrancar o joio agora mesmo?

O semeador explicou:
— Não é possível agora. O joio é muito parecido com o trigo, e se arrancarmos o joio, arrancaremos também o trigo. Deixem que cresçam juntos até a colheita. Na hora da ceifa, direi aos ceifeiros que primeiro recolham o joio e o queimem; depois juntem o trigo no meu celeiro, se ele tiver resistido.

Roriz Nunca Mais!

03 março, 2010

Plínio e a história

Em 2010, tive a sorte de conviver por algumas horas com Plínio de Arruda Sampaio, e saí desse encontro impressionado com a energia e o carisma de um dos grandes protagonistas da história do socialismo brasileiro.

— Bom dia, seu Plínio.
— Que história é essa de “seu Plínio, companheiro”? — respondeu ele, com aquele sorriso firme. — É Plínio.

No caminho do hotel para o aeroporto, Plínio começou a contar episódios de sua longa vida. Passando pelo Eixão, uma das rodovias principais de Brasília, comentou:
— Brasília está diferente. Naquele tempo, não havia uma árvore sequer.
Apontando para um dos cruzamentos, conhecidos aqui como “tesourinhas”, disse:
— Numa dessas entradas havia um tanque estacionado. Foi em 1964, quando eu ainda era deputado federal.

A narrativa continuou, como se estivéssemos assistindo a uma cena de filme:
— Para sair de Brasília, cercado pelos milicos, precisava de amigos. Os companheiros do Partido Comunista me ajudaram a fugir. Fomos para Goiânia, mas no caminho encontramos uma barreira da Polícia Militar. Todos estávamos nervosos. Quando o policial pediu nossas identificações, um deles nos reconheceu e disse em voz alta para o sargento: “Tudo bem aqui”. E fomos liberados. Nunca mais vi aquele rapaz.

E não faltou humor em meio à tensão:
— Vocês, que são beatos, rezem uma Ave Maria — lembrou Plínio, repetindo o pedido de um dos companheiros, como se estivesse compartilhando um segredo.

Ao chegarmos ao aeroporto, Plínio desceu do carro e se dirigiu ao balcão da companhia aérea, acompanhado de outro companheiro. Curioso, perguntei ao motorista por que não o acompanhava até o embarque.
Ele respondeu, com a simplicidade e o humor que sempre o caracterizaram:
— Não precisa me acompanhar. Vão achar que eu sou um velho.

E ali estava Plínio de Arruda Sampaio: um homem de história, de luta, mas também de sorriso fácil e presença marcante. Conversar com ele foi perceber que a História, às vezes, se faz também na leveza de uma palavra, na firmeza de um gesto e na coragem de viver o que muitos só ousam ler nos livros.

    Esta bandeira também é minha porque Sepé Tiarajú defendeu seu povo contra a colonização dos espanhóis e portugueses. Esta bandeira é mi...